Fenasps

quarta-feira, 28/01/2026

PROGRAMA DE GESTAO DE DESEMPENHO (PGD): A UBERIZAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS

Como o interesse dos servidores pelo teletrabalho tem sido usado contra os próprios servidores

Não há dúvidas que a flexibilidade de horário e localização no trabalho, assim como não precisar passar horas no trânsito ou no transporte público para chegar ao trabalho é algo muito bom. O problema é quando o desejo por tudo isso é instrumentalizado para aumentar a precarização do trabalho.

Muitos entregadores e motoristas de aplicativo, por exemplo, tem a liberdade de trabalhar o dia e a hora que quiserem. Mas pra isso, precisam adquirir e manter suas ferramentas de trabalho, trabalhar 12h por dia e durante 7 dias por semana para pagar suas contas. O desejo de mais “autonomia” e “liberdade” no trabalho, na prática, se converte em jornadas extenuantes e uma maior instabilidade de renda.

Esta estratégia de precarização do trabalho, reconhecido como uberização, ultrapassou os algoritmos de aplicativo e já atingiu os serviços públicos.

Sob o pretexto de normatizar o teletrabalho, o Programa de Gestão de Desempenho (PGD) foi decretado no governo Bolsonaro em 17 de maio de 2022. O PGD, no entanto, institui um modelo de gestão independente da modalidade presencial ou teletrabalho, e sua adesão e suspensão é uma escolha da autoridade máxima do órgão ou da entidade.

O PGD substitui o controle de frequência pelo cumprimento de metas. Na prática, assim como os trabalhadores de aplicativo, o servidor passa a ganhar pelo que entrega. O salário não é mais baseado nas horas trabalhadas, mas sim em metas de trabalho concluídas. Outra similaridade com os trabalhadores de aplicativo é que, aqueles servidores que forem autorizados para o teletrabalho, assumem os custos das condições de trabalho, como internet, luz e equipamentos tecnológicos e ergonômicos .

INSS – Laboratório da uberização

A lógica de uberização começou a ser implementada no Instituto Nacional de Serviço Social (INSS) antes mesmo do PGD. Em 2017, sob o governo Temer, surgia o embrião do que seria o novo Programa de Gestão, quando os servidores do órgão começaram a trabalhar por metas. Em menos de uma década, as consequências já são devastadoras.

De acordo com a Federação Nacional de Sindicatos de Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social (Fenasps), a lógica de trabalho por metas nos serviços públicos tem resultado na piora das condições de trabalho, no adoecimento generalizado dos servidores e em um atendimento à população cada vez pior.

Em pesquisa realizada pela Federação, cerca de 65% de servidores e servidoras tiveram algum afastamento do trabalho em 2019 por motivo de adoecimento, um aumento de 25,40% em relação a 2016. A pesquisa demonstra também que o tempo de trabalho aumentou, 47% dos entrevistados e das entrevistadas exerceram jornadas de 8 a 10 horas diárias. 91% avaliaram que o trabalho aferido por metas individuais de produtividade prejudica o atendimento à população.

A Federação observa ainda que, está cada vez mais comum, casos de servidores com doenças cardiovasculares, ataques cardíacos fulminantes e acidente vascular cerebral.

Ao mesmo tempo, o modelo de gestão por metas é incompatível com a função social dos serviços públicos. Ao precarizar o trabalho dos servidores e reduzir o serviço público à lógica privatista de gestão, abre-se espaço para a corrupção. Não é a toa que o INSS foi vítima de um grande esquema de fraude nesse último período. É impossível negar que as mudanças defendidas como modernização no Instituto facilitaram os esquemas de fraude, apesar de todo o alerta dos servidores do órgão desde 2019.

PGD: desenvolvimento pra quem?

A justa motivação dos servidores por melhor qualidade de vida com o Teletrabalho foi instrumentalizada, no governo Bolsonaro e ainda mantida no governo Lula, para transferir custos aos servidores, impor uma jornada invisível extenuante e reduzir direitos. O PGD trouxe um modelo de gestão uberizada, tanto para o teletrabalho quanto para o presencial, que adoece os servidores e enfraquece os serviços públicos.

Só há serviços públicos porque existem servidores. Precarizar o trabalho dos servidores necessariamente prejudica os serviços públicos e as políticas públicas de combate às desigualdades sociais. O PGD não afeta apenas as condições de trabalho dos servidores, mas todo o povo brasileiro.

Assim como a Reforma Administrativa, o PGD não tem o objetivo de modernizar a gestão pública para fortalecer os serviços públicos. Não se trata de ter uma gestão mais eficiente ou adaptar a gestão à realidade do teletrabalho, nem mesmo atender ao interesse dos servidores, o objetivo é enfraquecer os serviços públicos e a função social do Estado Brasileiro.

Últimas notícias

quinta-feira, 05/02/2026 ACORDÃO NO CONGRESSO APROVA TREM DA ALEGRIA QUE EXCLUI APOSENTADOS No final do ano de 2025 uma parte importante das entidades do FONASEFE estiverem na luta para aprovar emendas ao PL 6170, que criava ...
sexta-feira, 30/01/2026 ENTIDADES DO SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL PROTOCOLAM EM 30/1 A PAUTA DE REIVINDICAÇÃO NO MGI Na manhã desta sexta-feira (30), o Fonasefe e o Fonacate protocolaram a pauta de reivindicações de 2026 junto ao MGI, atendendo ao cronograma do ...
quinta-feira, 29/01/2026 GOVERNO RECUA NO PGD COMPULSÓRIO APÓS PRESSÃO DA CATEGORIA E DA FENASPS A Portaria PRES/INSS nº 1.923, de 28 de janeiro de 2026, que altera o regramento do Programa de Gestão e Desempenho (PGD), confirma um ...